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Agribusiness: how to preserve and maximize its strategic role

20 Jul 2016
Em raros momentos nas últimas cinco décadas, a sociedade brasileira esteve tão dependente de sua agricultura e, num sentido mais amplo, do seu agronegócio, como nos dias atuais. Com os setores industrial, construção e serviços bastante enfraquecidos, apenas o agronegócio encontra-se em condições de ajudar no processo de crescimento econômico, como já se viu em 2015. 

 

 

Após crescimento muito baixo em 2014, a economia caiu fortemente em 2015 (-3,8%). O desemprego começa 2016 com uma taxa de 10,9% ou 11 milhões de pessoas. A inflação ao consumidor está próxima dos dois dígitos, o rendimento real do trabalho já não cresce mais, mas, sim, passa a cair (-1,3% no último ano). As perspectivas não são animadoras diante da queda observada na formação bruta de capital, que voltou em 2015 a níveis inferiores a 20% do PIB. O ano de 2016 parece seguir o mesmo rumo. Há muita reforma - desde o campo político-institucional até o econômico-financeiro - a ser realizada para que a economia se recupere no decorrer de vários anos à frente e, talvez, no mais longo prazo tome uma trajetória capaz de conduzir o Brasil para a classe dos países desenvolvidos. 

 

 

Em termos de crescimento, a economia brasileira não vai bem há mais de trinta anos, quando do esgotamento do processo de industrialização baseado na força do Estado e no protecionismo, concebido por Vargas e adotado pelos militares e que produziu um padrão quase chinês de crescimento (6,5% ao ano, em média). Os resultados foram a criação de expressivo setor industrial - que, porém, se revelou pouco competitivo -, hiperinflação e endividamento fora do controle e, ainda, grande desigualdade social e pobreza. Estes dois parâmetros sociais começaram a melhorar com o controle da inflação pelo Plano Real, que pavimentou os avanços nos salários e nos programas de transferência de renda dos últimos 20 anos.

 

 

O Tripé Macroeconômico que se implantou em sequência (câmbio flutuante, lei da responsabilidade fiscal e o regime de metas de inflação), enquanto foi praticado, trouxe estabilidade de preços e controle fiscal, criando base que poderia ser usada para encetar um processo de crescimento mais rápido. O que se observou, no entanto, foi surto de crescimento (4,5% ao ano), de 2004 a 2011, que se revelou um alento proporcionado pela fase de “bonança externa” ou boom das commodities

 

 

Foram marcantes os aumentos da renda do trabalho, a redução da pobreza e da desigualdade, ao que se somou impressionante acumulação de reservas internacionais. O que muitos desconhecem é o protagonismo estratégico do agronegócio nesse período. Enquanto os preços internacionais de suas commodities tiveram crescimento real de 105%, para o produtor brasileiro, os preços reais caíram 8% por causa da queda monumental do dólar no mercado interno - devido à entrada de dólares via comércio, investimento direto e também atraídos pelos juros muito altos. Mesmo assim, o setor continuou crescendo a 3,2% ao ano, e, embora perdendo espaço na economia, expandiu suas exportações em 53%, gerando superávits cambiais que foram de 20 bilhões para 80 bilhões de dólares por ano. No entanto, o que houve no Brasil - mais do que um boom de exportações - foi um super boom de importações (que cresceram 164% de 2003 a 2011), envolvendo bens de capital - turbinando o crescimento -, e, principalmente, de consumo - segurando a inflação, mesmo diante dos substanciais aumentos de salários. Não fora por essas importações muito baratas, a história desses anos teria sido muito menos jubilosa, mesmo com os grandes estímulos dados ao consumo pelo governo. 

 

 

Esses anos dourados se foram desde 2011, mas o papel estratégico do agronegócio continua. Em 2011/12, o boom das commodities termina, a máquina de dólares baratos deixa de funcionar. O preço em dólares das exportações do agronegócio caiu 29% de 2012 a 2015; mesmo assim o volume exportado cresceu 36%, não evitando, porém, a queda no valor faturado. O câmbio vem se desvalorizando (dólar encareceu) e, com isso, as importações ficaram menos atrativas e, em consequência, a inflação voltou a pesar no bolso do consumidor. 

 

 

Novos aumentos reais de salário - não acompanhados de produtividade - passaram a ter impacto direto sobre os custos das empresas e, logo, sobre o desemprego. A renda do trabalho, depois de muitos anos, começa a cair. A indústria de transformação, que representava 21% do PIB em 2011, caiu para 16% em 2015 a despeito do estímulo recebido do governo. As políticas de transferência de renda podem ter sua eficácia reduzida diante de taxas bem maiores de inflação e a exaustão de recursos diante da extrema deterioração fiscal.

 

 

Diante do atual cenário de dificuldades, o agronegócio se posiciona como estratégico para manter-se em crescimento e competitivo no mercado externo apesar da demanda mais fraca, caso sejam asseguradas as condições necessárias para continuidade do avanço da sua produtividade e eficiência. Em 2015, enquanto o PIB total do Brasil recuou 3,8%, a indústria encolheu 6,2% e os serviços, 2,7%. A agricultura conseguiu avançar 1,8% e o agronegócio, 0,4% nesse contexto adverso.  

 

 

Nos próximos anos, somente o agronegócio pode apresentar resultados positivos e significativos, especialmente se políticas agrícolas adequadas forem implementadas. Para isso, é fundamental manterem-se os investimentos em: (a) ciência, tecnologia e extensão, (b) o crédito rural e (c) dar uma firme resposta em termos de infraestrutura de logística. Esse tripé é essencial para o crescimento do setor. Os dois primeiros instrumentos garantem o avanço sustentável da produtividade. 

 

 

Como mostrou o professor Steve Helfand, da Universidade da Califórnia, a produção agropecuária cresceu, entre os anos censitários de 1985 e 2006, a uma taxa média de 4% ao ano, com um crescimento médio de produtividade de 1,7%. Em grande parte, isso se deveu ao aumento de 5,6% ao ano do uso de insumos portadores de tecnologia, aí incluídos agroquímicos, sementes, rações e vacinas, enquanto a área explorada teve variação pouco expressiva. O autor mostra também o gap tecnológico que tende a aumentar entre os produtores de ponta e a grande maioria de produtores de baixa renda. Aí entra a extensão com instrumento de contenção da grande desigualdade tecnológica e, logo, de renda no setor agrícola. Eliseu Alves, da Embrapa, mostrou com clareza essa questão ao estudar a concentração da geração de renda na agropecuária nacional, onde a pobreza alcança cerca de 80% dos produtores rurais brasileiros. 

 

 

Quanto ao crédito, Joseph Schumpeter, já em 1911, demonstrava seu papel fundamental no processo de crescimento econômico. O empresário inovador é um demandante líquido de crédito utilizado para o desenvolvimento de novos projetos e na manutenção do nível tecnológico já alcançado. Evidentemente o crédito deve vir sempre acompanhado de instrumentos eficazes de gerenciamento de riscos, especialmente diante do agravamento das incertezas econômicas, financeiras e climáticas. 

 

 

Finalmente, quanto à prioridade à infraestrutura - desenvolvida evidentemente em parceria com o setor privado -, basta lembrar que o avanço do agronegócio, como também indica o professor Helfand, caracterizou-se por se desconcentrar regionalmente, crescendo proporcionalmente mais no Centro-Oeste (234%), no Norte (115%) e no Nordeste (91%) de 1985 a 2006. Na área tradicional, no Sul (65%) e no Sudeste (55%), o avanço foi menor. 

 

 

Essa expansão nas fronteiras pressionou os custos logísticos de produtos e insumos - os primeiros, com preços menores e os segundos, com preços maiores nas novas regiões. Especial atenção deve ser dada à viabilização do comércio regional nessas áreas e das exportações de crescentes volumes por portos do Norte e do Nordeste.  

 

 

Como se vê, o agronegócio tem um potencial pronto a ser posto em operação para ancorar mais uma vez a economia brasileira em tempos difíceis. Uma política agrícola de boa qualidade pode ajudá-lo muito nessa empreitada.

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